sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Definir o caos resulta uma tarefa extremamente complexa e, em geral, pouco aliciante.
O caos foi tradicionalmente entendido como o contraponto da ordem, da classificação das coisas e dos seres, e da própria organização e funcionalidade dos sistemas. De facto, esta visão extrema entre o caos e a ordem foi necessariamente imposta pelas culturas pré-helénicas, na sua necessidade por conhecer o universo que as envolvia. A civilização grega fundamentou esse difícil e complicado esforço justificando-o perante uma sociedade sempre sedenta por conhecer.
Longe de ser este o percurso mais fácil, a contribuição da cultura grega acabou por guiar a humanidade pelo caminho mais difícil e sacrificado. Afinal, seria necessário conhecer um extremo para poder apreciar a sabedoria concentrada no outro. Este comportamento é, curiosamente, uma das características mais interessantes em qualquer ecossistema. Continuamente existe uma necessidade imperiosa por conhecer os limites da sua funcionalidade, pois só assim poderão ser melhor exploradas as suas potencialidades de funcionamento.
Essa filosofia científica ordenada escolhida pelos helénicos devia passar, obrigatoriamente, pela tipificação dos objectos e dos acontecimentos. Os filósofos gregos, juntamente com os mesopotâmicos e os egípcios, construíram os pilares do estudo e debate sobre as ciências de forma extremamente meticulosa, com o intuito de iniciar o lento e difícil caminho da descrição dos fenómenos e dos seres e objectos. Caracterizaram e compararam, de modo a poder classificar o universo que lhes envolvia, justificando e razoando sobre a causa dessa tipificação. Esse espírito de conhecimento encontrou o seu auge no conceito da essência, ou tipo característico para cada um dos objectos classificados, a partir do qual era possível proceder à comparação ou à tipificação de novas essências.
A essência é o verdadeiro anti-caos, a oposição ao desordem e o constituinte básico da ordem. A essência é a descontinuidade do universo, a sua fragmentação e sistematização clara e ordeira. A essência é o anti-natural mas o antropicamente mais útil para descrever uma natureza fotográfica, instantânea e, portanto, sem vida. Com a essência foi diferenciado o bem do mal, a fortuna da miséria, a felicidade da desgraça. Com a essência houve ganhadores e fracassados, vitoriosos e vencidos, livres e oprimidos. A essência foi, é e será uma das opressões mais atormentadas e torturadores da vida, pois é a oposição mais extrema à mesma. Foi com a essência que foram criadas e cultivadas religiões, culturas, modos de vida e civilizações. Mas, ao passar dos séculos, o ser humano foi comprovando o amargo sabor de um conceito sem sustento natural, exclusivamente artificial e criado pela necessidade perante a impossibilidade de reconhecer a nossa eterna ignorância sobre o universo que nos rodeia.
Porém, o facto de criar todo este artificialismo sobre a ignorância e o medo fez do mesmo um estigma ao longo das sucessivas civilizações. Hoje em dia, a essência constitui uma grossa corda fortemente apertada à volta de cada um de nós, de modo que renunciar à mesma é um desafio à eternidade dos sistemas. Provavelmente, o nosso papel será o de contribuir para uma discussão, deixando que o tempo ajude a construir a possibilidade de poder dar um passo em frente contra o espírito essencialista, na compreensão do caos.